Friday, September 21, 2012

Estresse, crise financeira, desemprego, ansiedade...


Estresse, crise financeira, desemprego, ansiedade...
Antigamente, a relação profissional-empresa era quase um casamento.Atualmente o número de empresas no currículo de um profissional aos 30 anos de idade, às vezes, é maior do que o de um aposentado aos 65 anos de idade.
Alexandrina Maria Augusto da Silva Meleiro
Doutora em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), médica psiquiatra do Instituto de Psiquiatria Hospital do Hospital das Clínicas (IPq-HC-FMUSP), pesquisadora bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), membro do Conselho Científico da Associação Brasileira de Portadores de Transtorno Bipolar (Abrata), membro do Núcleo de Estudo Criminais (Necrim) da Academia de Polícia Civil do Estado de São Paulo Dr. Coriolano Nogueira Cobra (Acadepol)  CRM-SP 36.139

Antigamente, a relação profissional-empresa era quase um casamento. O jovem entrava na organização, fazia carreira e, em muitos casos, se aposentava, tendo apenas uma experiência profissional em toda a vida. Este, aliás, era o sonho e a realização de muitas pessoas. Atualmente o número de empresas no currículo de um profissional aos 30 anos de idade, às vezes, é maior do que o de um aposentado aos 65 anos de idade. Essa rotatividade, quando focada e estruturada, é bem vista pelo mercado de trabalho. À medida que o profissional se sente confortável ou seguro demais em determinada posição, passa a temer por qualquer mudança. Por uma questão de comodismo, há forte tendência a trilhar por caminhos conhecidos; são mais confortáveis. Quando vem uma crise econômica, os mais acomodados se entregam ao medo de perder o emprego, de viver uma situação nova de desemprego, e surgem ansiedade, insônia e diversos outros sintomas.
      
              Desajuste familiar em torno do desempregado


                                                 

O primeiro passo rumo à mudança tem de partir do mais interessado - o profissional. Somos os responsáveis pelo que acontece em nossa vida, sendo bom ou ruim, é preciso estar em permanente busca, só assim é possível evoluir.
O ideal é traçar uma nova meta e ir atrás desse objetivo, mesmo que ele esteja em outra organização. Quando o profissional tem um plano de carreira, ele sabe exatamente o que fazer. Se não tem, a primeira coisa a se fazer é desenvolver um: quais são os objetivos futuros, pessoais, o que se quer atingir, enfim, o que se pretende conquistar para si. A partir daí, ir atrás de meios para realizar essas metas. Sentir medo nessa hora é natural e normal, mas é preciso encará-lo.
O medo e a ansiedade partem de alguns estímulos internos e externos; entretanto, é necessário livrar-se deles. Acreditar na própria competência, analisar o cenário antes de tomar qualquer decisão e imaginar bons resultados são atitudes capazes de fazer com que essa mudança e todas as fases que ela implica sejam bem-sucedidas.
O estresse e a reação do organismo

Quando uma pessoa enfrenta uma situação de ameaça, seu organismo é ativado: a frequência cardíaca aumenta, a glicemia eleva-se, as pupilas dilatam-se, a pressão arterial se altera e os músculos entram em tensão. O estresse nada mais é do que a reação normal de alarme do organismo frente a estímulos externos (perigos) ou internos (exigências). Alterações no organismo decorrentes da reação de alarme do estresse: há liberação de adrenalina e noradrenalina (substâncias vasoconstritoras que diminuem o diâmetro das coronárias); liberação de aldosterona  (diminui a diurese, aumenta volume interno de liquido líquido e aumenta as plaquetas e o fibrinogênio). Consequentemente o sangue fica mais denso. Com isto isso, ocorre uma hemoconcentração que favorece o infarto do miocárdio. Concomitantemente há liberação de corticoides, favorecimento de catabolismo, levando a uma hiperglicemia no estado de estresse. A glicose metabolizada fornece energia, mas cronicamente favorece o surgimento de diabetes tipo 2. Do ponto de vista imunológico, há redução do interferon com queda dos linfócitos T e B, prejudicando a vigilância imunológica. Gripes, infecção urinária e outras por estresse são frequentes. O estresse favorece inúmeras doenças físicas, além de perda do sono.

















                                 
Figura 1. Fases do estresse
O estresse ocasiona diversos sentimentos, como: raiva, ansiedade, tristeza e desesperança. Tudo isso torna as pessoas mais suscetíveis. Também prejudica as habilidades para enfrentar os subsequentes eventos negativos de vida. Algumas pessoas podem ter comportamentos suicidas.
                    
                        Desempenho versus ansiedade

                                              


















                  

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima os transtornos mentais relacionados ao trabalho na população ativa, da seguinte forma:
- 30% de transtornos mentais leves;
- 5% a 10% de transtornos mentais graves;
- são as doenças que afastam o indivíduo do trabalho por mais tempo;
- segundo lugar de causas de auxílio-doença;
- segundo lugar de incapacidade permanente ou invalidez.

Conduta médica
Muitas vezes precisamos auxiliar nossos pacientes nessas situações, principalmente fazendo a prevenção de doenças decorrentes do estresse. Atualmente se sabe da plasticidade neuronal, se o tratamento adequado for instituído precocemente.
   
   Plasticidade do sistema neuronal
                                                                                       























Além do tradicional check-up, é importante verificar o lado emocional do paciente. Sintomas de ansiedade ou depressão podem ser mascarados por sintomas físicos. Quatro perguntas simples: 1. Você está deprimido?; 2. Você está ansioso?; 3. Você sente menos prazer nas coisas?; 4. Você tem insônia? A resposta a essas questões darão uma orientação ao bom médico em se aprofundar ou encaminhar o paciente para um especialista. Muitas vezes o preconceito é minimizado por uma abordagem tranqüila.

Muitos irão se beneficiar de medicação para ansiedade e depressão. Uma excelente proposta terapêutica farmacológica é o cloridrato de sertralina - inibidor seletivo de recaptação da serotonina (ISRS) -, que na dose de 50 mg/dia é benéfico para quadros de ansiedade e depressão leve, sem efeitos adversos que possam interferir nas atividades do paciente. Eles ficarão mais tranquilos em entrevistas, dinâmicas de grupos, além de poderem buscar melhor opção de proposta de trabalho.
 
Sugestão de leitura

Andrews G, Charney DS, Sirovatka PJ, Regier DA. Stress-induced and fear circuitry disorders. Refining the research agenda for DSM- V. 1.ed. American Psychiatric Association; 2009.

Ansorge MS, Zhou M, Lira A, Hen R, Gingrich JAl. Early life blockade of the %-HT transporter alters emotional behavior in adult mice. Science. 2004;306:879-81.

Barros CASM (Org.). Psiquiatria para leigo. Porto Alegre: Conceito,2008.
Kent JM, Mathew SJ, Gorman JM. Olecular targets in the treatment of anxiety. Biol Psychiatry. 2002;52:1008-30.

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