Thursday, July 05, 2007

suicidio

Suicídio de jovens aumenta 1.000%

Especialistas reunidos em congresso de suicidologia ressaltam que, apesar do crescimento, é possível evitar as mortes

PATRICIA GIUDICE

O número de suicídios cometidos por homens jovens, com idades entre 15 e 25 anos, aumentou mais de 1.000% nos últimos dez anos no mundo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). O Brasil está entre os dez países que mais notificam o problema e também seguiu a mesma tendência de crescimento. Em 2002, foram registradas 1.600 mortes desse tipo no país, só de jovens.

Apesar do crescimento, especialistas reunidos no 2º Congresso de Suicidologia da América Latina e Caribe, que acontece em Belo Horizonte, ressaltam que é possível prevenir o suicídio. O modo de vida moderno - com poucos laços afetivos e a falta de uma referência familiar - é, para a presidente da Associação de Suicidologia da América Latina e do Caribe (Asulac), Silvia Peláez, o principal fator de risco que pode estar levando a esse aumento. "A modernidade não estimula a integração, a convivência e dá como valores referenciais o consumo. O pai trata os jovens como criança e isso provoca angústias", afirmou Silvia.

Segundo o coordenador do Departamento de Saúde Mental em Genebra da OMS, José Manoel Bertolote, não há uma resposta única para o problema. "É possível que a modernidade, o consumismo sejam fatores que desencadeiam esse aumento. Mas vemos um maior acesso a armas de fogo, um aumento da demanda de doentes mentais que não são tratados e muitos casos de depressão", afirmou o especialista. Segundo ele, o consumo de álcool e drogas também são fatores de risco para o suicídio.

"É um problema de saúde mental, que a pessoa comete em um ato de desespero. É preciso divulgar que tem prevenção", disse Bertolote. Para a psicóloga Marília de Freitas Aguar, especialista em saúde da criança e do adolescente, o aumento das tentativas de suicídio entre jovens assusta. "Os dados ainda são subnotificados, mas o mais importante é aumentar a prevenção. O suicídio é um evento multifatorial, mas vemos que acontece com jovens que estão em um rede social frágil, com tendência a depressão", afirmou.

Segundo Marília, é fundamental que a família perceba o que está acontecendo de errado. "Hoje a gente acredita que 100% dos suicídios são anunciados. São falas, atitudes que as pessoas próximas não consideram. Existe uma certa dificuldade para a família em ver isso, não é por maldade", explicou a psicóloga.

Vítima
A jovem Ester, 19, tentou suicídio mais de uma vez. Ela conta que deu várias dicas à sua família de que sua vida estava por um triz, mas a situação só melhorou depois que ela foi parar no hospital. Não saber lidar com a crise existencial própria da adolescência desencadeou o problema. "Tinha um pensamento fixo de aniquilar minha vida, usei drogas e isso favoreceu muito para eu tentar me matar. Eu batia em mim mesma, usava muitos antidepressivos, tentei me jogar na frente de um ônibus, até eu ingerir uma quantidade muito grande de remédios e ir parar no hospital", conta.

A tentativa foi frustrada e valeu para que a estudante "acordasse para a vida". "Foi muito ruim quando vi todo mundo chorando, mas serviu para que minha família acordasse também e percebesse o momento que eu estava passando. Caí na real que eu estava totalmente errada e que precisava enfrentar uma vida nova. Tinha somente pensamentos negativos. Acho que só perceberam mesmo quando fui parar no hospital. Eu precisava somente da minha família, unida. Sabia que estava errada, mas não tinha forças para sair daquilo sozinha", disse a estudante que agora, recuperada, está sonhando com seu futuro.

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Serviço de apoio irá atender familiares e amigos

Durante o 2º Congresso de Suicidologia da América Latina e Caribe e 5ª Jornada de Suicidologia do Mercosul, que acontece em Belo Horizonte até o próximo dia 30, será lançado um serviço de apoio aos sobreviventes, como são chamados os familiares ou amigos das pessoas que cometeram o suicídio. O ambulatório de apoio deve começar a funcionar no próximo semestre e, segundo a psicóloga e presidente do grupo Apoio a Perdas Irreparáveis (API), Gláucia Rezende Tavares, a idéia é proporcionar amparo.

"Essas pessoas se sentem muito machucadas com a perda e com a decisão do outro de não querer mais estar presente. Temos uma cultura que tende a estimular muito a culpa, por isso é preciso a criação de redes de amparo e apoio. Uma dor que possa ser expressada é melhor assimilada", explicou. No grupo de amparo haverá ajuda psicológica e compartilhamento das experiências.

"Quando elas conseguem se agrupar com outras semelhantes, que passaram pelo mesmo tipo de problema, ela se sentem mais amparadas", afirmou. A primeira dificuldade para a família, segundo Gláucia, é admitir que a morte aconteceu por escolha. "Ainda há um mito de que, se isso for dito, será induzido. As pessoas têm medo de que isso volte a repetir", disse. (PG)

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Até 60% das vítimas procuraram médico

No final do ano passado o Ministério da Saúde entregou para médicos um manual para melhorar a identificação de potenciais suicidas. A intenção é fazer com que esses médicos e as equipes de enfermeiros melhorem a comunicação com os pacientes e possam identificar quem tem algum tipo de problema, como depressão, que possa levar ao suicídio. Segundo o manual, entre 40% e 60% das pessoas que promoveram o auto-extermínio consultaram um médico no mês anterior à morte. Grande parte procurou um clínico geral.

"A identificação é importante porque essa pessoa já deveria ter sinais da intenção de se suicidar ou indícios de uma doença mental", informou o coordenador do departamento de Saúde Mental em Genebra da Organização Mundial de Saúde (OMS), José Manoel Bertolote. Para ele, o atendimento feito por um clínico no Brasil tem o tempo limitado, o que dificulta a investigação dos fatores de risco para o suicídio.

"A pessoa chega ao consultório com depressão, febre e tosse. O clínico acaba identificando a febre e a tosse porque não é treinado para fazer mais que isso. Nossa expectativa é que o quadro mude com a entrega dos manuais", afirmou Bertolote. Para sair do risco de cometer um suicídio, segundo o coordenador da OMS, é preciso o apoio da família, mas também do próprio indivíduo.

"A pessoa tem que saber reconhecer se ela tem uma dor emocional. A maioria das doenças mentais têm tratamento e, se não a cura total, têm melhoria de 90%. Se ela está tão mal que não consegue enxergar, a família e também os colegas de trabalho precisam ajudar", disse Bertolote. (PG)

http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=50272

[As partes desta mensagem que não continham texto foram removidas]

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