Tuesday, September 30, 2008

Como o estresse afeta o coração

Como o estresse afeta o coração
por Joel Rennó Jr.

O estresse emocional pode precipitar uma disfunção grave do ventrículo esquerdo do coração. A notícia boa é que tal problema pode ser reversível.

O mecanismo pelo qual isso ocorre, ainda é desconhecido. Na década passada, anormalidades de contração cardíaca e falha dos batimentos cardíacos foram relacionados ao estresse.

Estudo publicado na prestigiada revista New England Journal of Medicine, fevereiro de 2006, foram avaliados 19 pacientes saudáveis, sem lesões da artéria coronária e com disfunção cardíaca após um súbito estresse emocional. A média de idade dos pacientes foi de 63 anos e 95% eram mulheres, sendo que 16 das 18 mulheres do estudo se encontravam no período da pós-menopausa. Os sintomas de tais pacientes incluiram dor torácica, edema pulmonar (água nos pulmões) e choque cardiogênico. Foram observadas alterações elétricas da condução cardíaca como a inversão da onda T e o prolongamento de um intervalo do eletrocardiograma conhecido como QT.

Houve uma monitorização cardíaca detalhada com eletrocardiograma, ecocardiograma, dosagem de enzimas cardíacas (troponina I) e cateterismo (para análise de uma possível obstrução das artérias coronárias).

Os níveis de substâncias liberadas no estresse e conhecidas como catecolaminas ou hormônios do estresse (epinefrina e dopamina) foram mais elevados nos pacientes com antecedentes de estresse severo. Provavelmente, em tais pacientes, o sistema nervoso simpático, ativado em estados de alerta e perigo, é hiperativado. Isso pode levar a importantes espasmos na artéria coronária que irriga o coração de sangue. Outro fator também possível é que tais substâncias levem à lesão de células do coração conhecidas como miócitos pelo aumento dos radicais livres.

Portanto, fica dado aqui o alerta a todos os colegas cardiologistas e também a todas as pessoas que o estresse, mesmo em pessoas saudáveis e independente de outros fatores de risco para doenças cardíacas (pressão elevada, colesterol ruim alto, tabagismo, obesidade, diabetes, sedentarismo, aumento de atividades inflamatórias específicas), pode ser o inimigo número um para graves conseqüências do funcionamento do ventrículo esquerdo. Controlando o estresse, tais alterações, repito, são reversiveis.

Como não há na prática do dia-a-dia como impedir o estresse e sim como inibir o impacto devastador do mesmo no organismo das pessoas através de mudanças simples de hábitos de vida e comportamentos como : grupos de auto-ajuda, trabalhos psicopedagógicos, técnicas orientais de relaxamento e de psicoterapia cognitivo-comportamental devem ser do conhecimento de todos os profissionais da área de saúde, a fim de que tais evoluções malignas não ocorram. O papel da psiquiatria também precisa ser desestigmatizado por toda a sociedade. É raro no início de tais quadros, as pessoas procurarem ajuda na área de saúde mental. Ainda predominam os famosos e desastrosos mitos e preconceitos.



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Joel Rennó Jr.
Doutor em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP. Coordenador do Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher-Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein-SP (HIAE)
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