Saturday, March 03, 2007

uso da creatina em academias

Força extra, riscos extras
Popular entre o público das academias, a creatina divide opiniões até mesmo entre os especialistas. Conheça os contras e os benefícios desse suplemento que promete aumentar os músculos e torná-los mais resistentes
por Michelle Veronese | design Giovanni Tinti | fotos Dercílio
Se você ousar fazer uma enquete entre o público de academias sobre um composto chamado creatina, arranjará polêmica na certa. Muita gente defende que a substância, ingerida na forma de suplemento, dá mais pilha para os músculos e aumenta o muque. Os entusiastas lembram que seu uso não é considerado dopping e que craques como Zidane, da seleção francesa de futebol, já recorreram a essa espécie de, digamos, combustível. Seus detratores, porém, garantem que ela pode causar danos ao organismo. Quem tem razão? Os especialistas ainda não têm uma resposta na ponta da língua, mas já sabem um bocado a respeito.
É inegável que a suplementação de creatina torna a musculatura mais resistente. "Há evidências experimentais de que ela possibilita um melhor desempenho em atividades de força e também em esportes que necessitam de explosão muscular", confirma Sérgio Andrade Perez, professor do Laboratório de Fisiologia do Exercício da Universidade Federal de São Carlos, no interior paulista. Por isso ela é tão popular, especialmente entre corredores, ciclistas e nadadores. Alguns médicos, no entanto, vêem os resultados com cautela. "Faltam estudos e os que existem não têm muito peso científico", opina Renata Castro, diretora científica da Sociedade de Medicina do Esporte do Rio de Janeiro (Somerj).
Um dos temores é de que o tal composto comprometa o funcionamento dos rins. Para tirar essa história a limpo, cientistas da Escola de Educação Física e Esporte da USP avaliaram praticantes de esportes que ingeriam 10 gramas de creatina em pó por dia. "Nenhum deles apresentou comprometimento da função renal", tranqüiliza o pesquisador Bruno Gualano. E veja bem: isso apesar de os voluntários terem ultrapassado de longe o limite recomendável de 3 gramas do suplemento — dosagem que, segundo boa parte dos especialistas, não oferece nenhum perigo, desde que ingerida por um período máximo de três meses.
O que explicaria, então, os rins sãos e salvos do grupo estudado pelos cientistas da USP? Eles próprios arriscam duas hipóteses: o curto tempo de ingestão e a qualidade da creatina utilizada na pesquisa. Exceção feita às farmácias de manipulação, a venda desse tipo de suplemento está proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, desde 1998. A justificativa é de que a substância não é um suplemento alimentar. Por isso — recomenda o órgão —, como um remédio, só o médico deve receitá-la.
Muita gente costuma driblar a proibição recorrendo a produtos importados ou ao mercado informal — o que, lógico, é arriscado. Nunca se garante se a creatina encontrada por aí não vem misturada com outras substâncias, sabe-se lá quais. E o leigo, claro, não consegue separar o joio do trigo quando os componentes da fórmula aparecem no rótulo. A nutricionista Nailza Maestá enfatiza a importância de procurar a orientação de um bom profi ssional e jamais ingerir o suplemento por conta própria. "Não se pode fazer a prescrição com base apenas nas informações da embalagem", adverte Nailza. "O consumo indiscriminado não apenas prejudica a saúde como pode piorar o rendimento físico", avisa ainda Daniela Telo. Sem contar que os efeitos são temporários. Quer dizer, temporários em termos de ganho muscular. Já as conseqüências para os rins, essas podem até ser irreversíveis, fique bem entendido.
FONTES NATURAIS
Para reforçar o trabalho dos músculos, é bom ingerir alimentos naturalmente ricos em creatina, como carnes, ovos e peixes. Veja o que dizem os especialistas:
Consumo médio
"Um homem de 70 quilos necessita de aproximadamente 2 gramas de creatina por dia. Metade dessa quantidade é obtida por meio da alimentação. Um bife grande, por exemplo, contém 1 grama da substância. O restante é sintetizado pelo corpo", ensina a nutricionista Nailza Maestá, professora da Universidade Estadual Paulista de Botucatu.
Consumo extra
"Quem pratica exercícios de curta duração e de resistência pode ganhar força se aumentar a ingestão de creatina. Bastam três porções de carne por dia para garantir 3 gramas desse composto, o equivalente à dose indicada do suplemento", lembra a endocrinologista Daniela Telo, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.
OUTROS BONS RESULTADOS
Pesquisadores da Universidade de Sydney, na Austrália, decidiram avaliar a influência da creatina no cérebro humano. Para isso testaram o desempenho intelectual de 45 estudantes durante seis semanas. Ao final, o grupo que ingeriu a substância se saiu melhor nos testes de inteligência e memória quando comparado com os voluntários tratados com placebo. Já o estudo da Escola de Educação Física e Esporte da USP revelou: "Os indivíduos que associavam exercícios ao uso da creatina também adquiriram maior tolerância à glicose", diz o pesquisador Bruno Gualano. A meta agora é investigar a ação da substância no controle da glicemia.

Para melhorar a performance nos treinos de corrida, há dois anos o administrador de empresas Luiz Augusto Barros, 39 anos, começou a usar suplementos como a creatina. "Inicialmente procurei orientação de um nutricionista e de um endocrinologista e, desde então, sempre procuro checar minha saúde", ele conta. Nunca sofreu nenhum tipo de problema, já que obedece estritamente às recomendações dos experts no assunto.
MÚSCULO ENERGIZADO
Acompanhe o percurso da creatina desde o momento em que entra na circulação e entenda de que forma ela infl a os músculos


PRODUÇÃO ANDREA SILVA / BAYARD
FOTO SÍLVIA ZAMBONI / PRODUÇÃO ALÊ RAVIZZA
INFOGRÁFICO RENATA CHABETAI e GIOVANNI TINTI
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